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CNH automática: facilidade que pode custar vidas


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Especialistas alertam sobre riscos da CNH automática

A proposta de renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) gera alerta entre especialistas em segurança viária. Eles argumentam que a ausência de exames periódicos pode mascarar problemas de saúde dos condutores, aumentando os riscos de acidentes.

A falta de integração de dados entre sistemas de saúde e o Detran agrava a situação, segundo os especialistas consultados.

O desafio do autoconhecimento do motorista

A discussão sobre a renovação automática da CNH ganha contornos de alerta entre especialistas em trânsito e segurança viária. A proposta, que dispensaria o exame médico periódico, é vista como uma medida de facilidade que pode, na prática, colocar vidas em risco.

O cerne da questão reside na capacidade do motorista de autodeclarar sua aptidão para dirigir, um processo que especialistas consideram frágil diante da realidade brasileira.

Dificuldade em reconhecer o próprio declínio

A psicóloga especialista em trânsito Giovanna Varoni ressalta que o ser humano tem dificuldade em reconhecer o próprio declínio. Muitas coisas mudam na nossa saúde física e mental em um período de cinco anos, intervalo padrão para renovação da CNH.

Sem o exame, o condutor perde o único momento de reflexão técnica sobre suas capacidades. Deduzir que o motorista está apto a dirigir em segurança expõe todos ao risco de acidentes e mortes.

Essa lacuna no processo de renovação preocupa profissionais que atuam diretamente na avaliação de condutores.

Medo de perder o direito de dirigir

Adalgisa Lopes, especialista em segurança viária e presidente da Associação das Clínicas de Trânsito de Minas Gerais (Actrans-MG), reforça essa visão. O motorista brasileiro, por medo de perder o direito de dirigir, tende a ocultar sintomas.

O exame oferece um acolhimento técnico que a renovação automática jamais dará. Sem esse ‘olho clínico’, teremos motoristas circulando em estado de negação, sem consciência de que suas limitações físicas tornaram-se armas.

A avaliação periódica, portanto, atua como uma barreira de proteção não apenas para o condutor, mas para toda a sociedade.

Falta de integração no sistema brasileiro

Além da questão do autoconhecimento, outro ponto crítico é a estrutura de fiscalização e suporte. No Brasil, não há integração de dados entre o SUS, a saúde suplementar e o Detran.

Essa desconexão impede que informações sobre a saúde dos condutores, identificadas em consultas médicas de rotina, cheguem aos órgãos responsáveis pela habilitação.

Sem essa rede de proteção e fiscalização, a autodeclaração torna-se, na prática, uma peça de ficção que deixa o trânsito à própria sorte.

Comparação com modelos internacionais

Em contraste, o governo frequentemente cita países desenvolvidos que utilizam a autodeclaração de saúde. No entanto, a realidade brasileira carece dos mecanismos de suporte desses países.

O ‘dever de notificação’ em outros países

Na Europa e nos Estados Unidos, vigora o ‘dever de notificação’. Médicos particulares são obrigados por lei a informar as autoridades caso identifiquem que um paciente perdeu as condições de dirigir.

Esse sistema cria uma camada adicional de segurança que, atualmente, não existe no Brasil.

Ausência de adaptação à realidade local

A referência a modelos internacionais de autodeclaração precisa ser contextualizada. Enquanto nesses locais há uma estrutura robusta de notificação e acompanhamento, o Brasil opera com sistemas de saúde fragmentados.

A ausência do ‘dever de notificação’ significa que um médico que identifique um problema grave em seu paciente não tem a obrigação legal de comunicar o fato ao Detran.

Consequentemente, condutores com condições incapacitantes podem continuar dirigindo sem qualquer intervenção.

Impacto na segurança viária

O impacto potencial na segurança viária é o ponto que mais preocupa os especialistas. A combinação entre a dificuldade de autopercepção e a falta de integração de dados cria um ambiente propício para riscos.

Motoristas que não reconhecem suas próprias limitações, seja por questões físicas ou cognitivas, tornam-se um perigo em potencial nas vias. A renovação automática, sem o crivo técnico do exame, pode acelerar esse processo.

Exame como momento de conscientização

Por outro lado, a manutenção do exame periódico serve como um momento de conscientização. Ele força o condutor a refletir sobre sua saúde e suas capacidades, algo que a mera autodeclaração não proporciona.

Em um país com altos índices de acidentes de trânsito, qualquer medida que fragilize os mecanismos de controle precisa ser analisada com extremo cuidado.

A busca por facilidade não pode, em hipótese alguma, comprometer a segurança de todos que compartilham as ruas e estradas.

O caminho a seguir para o Brasil

Diante dos alertas, fica claro que a discussão sobre a CNH automática precisa ir além da simples conveniência. É necessário avaliar se o Brasil possui as condições estruturais para adotar um modelo baseado na autodeclaração.

Pré-requisitos para mudança

  • Implementação de sistemas integrados de saúde
  • Criação de um ‘dever de notificação’ para médicos
  • Adaptação da medida à realidade brasileira

Sem essas bases, a medida pode gerar mais problemas do que soluções, segundo os especialistas.

Avaliação periódica como ferramenta essencial

Enquanto isso, a avaliação periódica continua sendo a principal ferramenta para garantir que os condutores estejam realmente aptos a dirigir. Ela representa não apenas uma formalidade burocrática, mas um compromisso com a segurança coletiva.

A facilidade prometida pela renovação automática, portanto, deve ser ponderada frente aos riscos reais que ela pode acarretar. O trânsito seguro depende, acima de tudo, de decisões que priorizem a vida.

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