A segurança dos pedestres no trânsito é uma preocupação constante, e uma nova proposta da Universidade de São Paulo (USP) promete trazer avanços significativos nessa área. O pesquisador Andrey Luís Barbosa Gomes desenvolveu, em sua dissertação de mestrado, um sistema de semáforo inteligente que se adapta ao ritmo de quem está a pé. A proposta busca adaptar o funcionamento do semáforo às necessidades reais de quem utiliza a via, tendo como principal objetivo tornar as travessias mais seguras. O trabalho foi orientado pelo professor Claudio Luiz Marte.
Os acidentes entre veículos e pedestres continuam sendo um desafio para a mobilidade urbana. Grande parte dos sistemas de controle de tráfego ainda prioriza o fluxo de veículos motorizados ou do transporte coletivo, deixando em segundo plano a segurança de quem caminha. Iniciativas voltadas à segurança dos pedestres são essenciais, principalmente porque quem está a pé é o mais exposto aos riscos do trânsito. Foi exatamente pensando nessa vulnerabilidade que a pesquisa concentrou a atenção no comportamento dos pedestres.
Uma proposta de semáforo que “espera”
A ideia central da tecnologia é simples: em vez de um tempo fixo de travessia, o semáforo aguarda o pedestre concluir o percurso. O programa funciona abrindo o verde para o pedestre e, se ele já tiver atravessado, o sinal fecha e libera os veículos. Mas, se um sensor detectar que alguém ainda está na faixa, o veículo continua parado e o verde se mantém. Dessa forma, o sistema elimina o risco de o pedestre ser apanhado no meio da via com o sinal fechado para ele, respeitando o tempo individual de cada pessoa.
Metodologia: dados reais da capital paulista
Para avaliar o desempenho da inovação, os pesquisadores não se basearam apenas em modelos teóricos. Eles utilizaram dados reais de diferentes cruzamentos da capital paulista. O trabalho reuniu informações detalhadas sobre a geometria das vias, volume de veículos e pedestres, e os movimentos durante a travessia. Foram consideradas inclusive situações críticas, como travessias fora da faixa ou com semáforo aberto para veículos. Com esse conjunto robusto de dados, foram construídas simulações computacionais em quatro locais com perfis bastante distintos.
Cenário 1: Hospital Universitário
O primeiro local simulado foi o cruzamento em frente ao Hospital Universitário da USP. Ali, a circulação de idosos, pessoas com deficiência, pacientes e crianças torna o ambiente especialmente sensível. De fato, esse ponto representou um dos maiores desafios do estudo justamente por concentrar usuários mais vulneráveis, que frequentemente necessitam de um tempo maior para atravessar.
Cenário 2: Praça dos Bancos
O segundo cenário foi a Praça dos Bancos, situada na Cidade Universitária. Embora não haja a mesma concentração de pessoas com mobilidade reduzida, o local tem um fluxo intenso e constante de estudantes e funcionários, com travessias frequentes ao longo do dia.
Cenário 3: Avenida Rebouças com Rua Oscar Freire
Já o cruzamento entre a Avenida Rebouças e a Rua Oscar Freire representa o oposto: um ponto de altíssimo movimento, tanto de veículos quanto de pedestres, e que ainda serve de acesso à estação Oscar Freire do Metrô. Nesse tipo de ambiente, a disputa por espaço pode gerar conflitos diários, e a sincronia dos semáforos é fundamental para a segurança.
Cenário 4: Terminal Cidade Tiradentes
Por fim, a equipe analisou o entorno do Terminal Cidade Tiradentes, uma região marcada por urbanização não planejada. As condições de travessia costumam ser mais precárias, e a implantação de um semáforo adaptativo teria um impacto direto na proteção dos moradores.
Ganhos para os motoristas
Embora a pesquisa tivesse como foco principal a segurança dos pedestres, os resultados mostraram que os motoristas também se beneficiaram. O sistema reduz as paradas desnecessárias, pois só interrompe o tráfego de veículos enquanto realmente há alguém atravessando. Andrey Gomes afirmou que a pesquisa demonstra que é possível tornar as travessias mais seguras sem comprometer significativamente a circulação dos veículos.
O pedestre como protagonista
O orientador Claudio Luiz Marte fez uma reflexão importante sobre a engenharia de tráfego tradicional. Ele lembrou que, historicamente, o fluxo de veículos e a geometria das vias são priorizados em detrimento do pedestre. Mas, como ressaltou, a posição de pedestre é universal: todos, em algum momento, assumem esse papel. A pesquisa, portanto, não só oferece uma ferramenta tecnológica, mas também propõe uma mudança de mentalidade, colocando o pedestre no centro do planejamento urbano. A fonte não detalhou se há previsão para implementação em larga escala, mas os resultados iniciais são animadores.
Fonte
- www.portaldotransito.com.br
- USP (www5.usp.br)
