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Carcará recorde de velocidade: o carro brasileiro que sumiu


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Carcará recorde de velocidade: o carro brasileiro que sumiu
Crédito: autoesporte.globo.com

Em 29 de junho de 1966, um carro brasileiro chamado Carcará gravou seu nome na história do automobilismo nacional. Na rodovia Rio-Santos, na Barra da Tijuca (RJ), ele estabeleceu o primeiro recorde latino-americano de velocidade na categoria de veículos com motores entre 750 cc e 1.100 cc. A média foi de 212,903 km/h, com passagens de 214,477 km/h e 211,329 km/h. O feito foi reconhecido e homologado pela Federação Internacional do Automóvel (FIA).

Uma aventura que deu certo

O designer do carro, Anísio Campos (1934-2019), descreveu o recorde como “uma aventura que tinha tudo para dar errado, mas deu certo”. A frase resume bem o espírito da empreitada, que envolveu riscos e superações. Para chegar ao Carcará, a equipe se inspirou em marcos da história, como o tenente-coronel britânico Goldie Gardner, que em 1939, na Alemanha, atingiu 321 km/h com um MG EX135, motor 1.100 cc com compressor.

Vídeo: YouTube | Fonte: autoesporte.globo.com

O contexto da Vemag

Na época, a Vemag (Veículos e Máquinas Agrícolas) era uma montadora brasileira que produzia o DKW, um carro popular. No entanto, em 1967, a Volkswagen do Brasil assumiu o controle da Vemag e tirou o DKW de linha. Antes disso, a equipe de competições da Vemag vivia seus últimos momentos. Na última prova da Equipe Vemag, as Mil Milhas Brasileiras em novembro de 1966, os três Malzoni-DKW ficaram em segunda, terceira e quarta posições, atrás do Chevrolet Corvette 18 de Camilo Christófaro.

O projeto do recorde

Foi nesse contexto que Lettry, um dos responsáveis pelo departamento de competições, propôs construir um carro para estabelecer o primeiro recorde de velocidade em reta e deixar um legado. A ideia era ousada: criar um veículo que pudesse quebrar um recorde internacional. Anísio Campos desenhou o protótipo; Mário César de Camargo Filho (Marinho) conduziria o carro; Miguel Crispim prepararia o motor originalmente de 981 cc e 50 cv a 4.500 rpm.

Construção na fazenda

Em janeiro de 1965, o carro de recordes começou a ser construído na garagem de tratores da Fazenda Chimbó, em Matão (SP), pertencente a Genaro “Rino” Malzoni, que supervisionou a construção. O carro tinha o nome Arpoador. Anísio estudou a aerodinâmica das aves para desenhar o veículo, inspirando-se também nas linhas dos Flechas de Prata tipos A, C e D, desenvolvidos por Ferdinand Porsche para a Auto Union nos anos 1930, e no Auto Union Lucca, de 1935.

Detalhes técnicos

O chassi usado foi criado por Tony Bianco e Chico Landi para a Fórmula Júnior, pesava 32 quilos e permitia instalação de suspensão independente em todas as rodas. O motor foi equipado com pistões forjados em alumínio, teve a cilindrada aumentada de 981 cc para 1089 cc, recebeu três carburadores Solex 44 e transmissão com quatro marchas longas. A ré foi suprimida. O carro pesava 500 kg. Para garantir a aerodinâmica, o carro foi testado no túnel de vento do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP).

O batismo e os desafios

O carro ganhou o nome Carcará, um gavião comum no Brasil. Nos primeiros testes, Marinho queixou-se da estabilidade direcional, e Lettry recusou-se a equipar o carro com barra estabilizadora dianteira. A equipe concluiu que estava pronta para estabelecer o recorde, sob a direção da Volkswagen, que extinguiria a Equipe Vemag em 30 de junho. Nos testes no local da prova, Marinho exigiu a instalação de uma barra estabilizadora, mas não havia tempo para buscá-la na fábrica da Vemag. Nos testes, o Carcará derrapou na pista, evidenciando problemas de estabilidade.

Uma solução inesperada

Diante do problema, Anísio lembrou do acidente com o piloto alemão Bernd Rosemeyer, que morreu em 1938 ao volante do Auto Union Tipo C Streamline. A solução veio de Lettry: sugeriu substituir os pneus dianteiros Pirelli Cinturato pelos Pirelli Stelvio Spalla di Sicurezza, diagonais, para facilitar o controle do carro. A troca resolveu a questão e permitiu que o recorde fosse alcançado.

O desaparecimento

Após o recorde, o Carcará desapareceu do cenário automobilístico. Com a extinção da Equipe Vemag, o carro não teve continuidade. A fonte consultada não detalha o paradeiro do veículo, mas a história permanece como um marco da engenharia brasileira. O feito de 1966, reconhecido pela FIA, é lembrado como um dos momentos mais importantes do automobilismo nacional, ainda que o carro tenha sumido dos holofotes.

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