Dormir mal pode ser tão perigoso quanto beber antes de dirigir, alertam especialistas. O funcionamento do relógio biológico influencia diretamente o estado de alerta ao longo do dia e pode tornar determinados horários mais críticos para quem está ao volante. Enquanto o álcool é facilmente reconhecido como um risco, a sonolência costuma ser negligenciada, apesar de seus efeitos igualmente devastadores.
Ritmo biológico e alerta ao volante
O organismo humano funciona de acordo com um ritmo biológico que regula funções como sono, vigília, temperatura corporal, produção hormonal e níveis de atenção. Esse ciclo, conhecido como ritmo circadiano, determina momentos de maior e menor disposição ao longo do dia. Em determinados momentos do dia, principalmente durante a madrugada e logo após o almoço, ocorre redução natural do estado de alerta. Se o motorista já estiver cansado ou tiver dormido pouco, a redução natural do estado de alerta pode favorecer episódios de sonolência ao volante. A situação pode se tornar crítica em velocidades elevadas.
Um motorista que adormece por quatro segundos enquanto trafega a 100 km/h percorre mais de 100 metros sem controle do veículo. Esse intervalo é suficiente para ultrapassar uma faixa de pedestres, invadir a pista contrária ou colidir com outro carro. A falta de reação durante esses segundos pode ser fatal, tanto para o condutor quanto para terceiros.
Cronotipo e desalinhamento
Cronotipo é a tendência natural de cada pessoa apresentar melhor desempenho em determinados períodos do dia. Algumas pessoas são mais produtivas pela manhã, outras à noite. Quando um motorista trabalha em horários incompatíveis com seu relógio biológico, ocorre desalinhamento que compromete funções cognitivas como atenção, memória, percepção de riscos e velocidade de resposta. O problema de desalinhamento costuma ser mais frequente entre motoristas profissionais submetidos a jornadas prolongadas, trabalho noturno e períodos insuficientes de descanso. Essa condição favorece o chamado ‘jet lag social’, associado ao aumento do risco de doenças metabólicas e cardiovasculares.
Motoristas de caminhão, entregadores e profissionais que trabalham em turnos são particularmente vulneráveis. A incompatibilidade entre o horário de trabalho e o cronotipo natural pode levar a erros de julgamento, como não perceber um pedestre ou não frear a tempo. Além disso, o desalinhamento crônico contribui para o desenvolvimento de problemas de saúde a longo prazo, como obesidade e diabetes.
Comparação com o álcool
Permanecer acordado por longos períodos provoca alterações semelhantes às observadas após o consumo de bebidas alcoólicas. Aproximadamente 17 horas contínuas de vigília podem comprometer o desempenho de forma comparável a uma concentração de álcool de 0,05% – nível que já é considerado ilegal para dirigir em muitos países. Permanecer 24 horas sem dormir pode produzir efeitos semelhantes aos de uma alcoolemia de cerca de 0,10%, o dobro do limite legal em diversos lugares. O álcool é facilmente reconhecido como um risco, enquanto a sonolência costuma ser negligenciada.
Muitos motoristas não percebem o próprio cansaço ou subestimam seus efeitos. Ao contrário do álcool, que pode ser medido com bafômetros, a sonolência não tem um teste rápido e objetivo, o que dificulta a fiscalização. Campanhas de conscientização e educação são essenciais para mudar essa percepção.
Distúrbios do sono e riscos
Distúrbios como apneia obstrutiva do sono, insônia, narcolepsia e síndrome das pernas inquietas podem comprometer a qualidade do descanso e aumentar o risco de acidentes. Na apneia, a respiração é interrompida diversas vezes durante a noite, impedindo o sono reparador. Como consequência da apneia, a pessoa pode acordar cansada, apresentar sonolência durante o dia e dificuldade para manter a concentração. A apneia está associada ao desenvolvimento de doenças como hipertensão, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Estima-se que uma parcela significativa dos motoristas com apneia não diagnosticada esteja nas estradas sem saber do risco que correm. Ronco alto, pausas na respiração durante o sono e cansaço matinal são sinais de alerta. O tratamento, que inclui uso de CPAP e mudanças no estilo de vida, pode melhorar drasticamente a qualidade do sono e reduzir a sonolência diurna.
Gestão da fadiga nas empresas
Empresas que possuem condutores em suas operações devem incorporar a gestão da fadiga às estratégias de segurança e saúde ocupacional. Investir em programas estruturados de gestão da fadiga beneficia trabalhadores e empresas e representa estratégia para reduzir acidentes e tornar o trânsito mais seguro. Esses programas podem incluir treinamentos sobre higiene do sono, escalas de trabalho que respeitem o relógio biológico e pausas obrigatórias durante jornadas longas.
Algumas companhias já utilizam tecnologias como sensores de fadiga nos veículos e aplicativos que monitoram o tempo de vigília. A adoção dessas medidas não apenas salva vidas, mas também reduz custos com acidentes, multas e afastamentos. A gestão da fadiga deve ser vista como um investimento, não como um gasto.
Em resumo, dormir mal antes de dirigir é um risco real e comparável ao consumo de álcool. Conhecer os próprios limites, respeitar o relógio biológico e tratar distúrbios do sono são passos fundamentais para um trânsito mais seguro. A próxima vez que pensar em dirigir com sono, lembre-se: os efeitos podem ser os mesmos de uma dose de álcool.
Fonte
- www.portaldotransito.com.br
- AndreyPopov para Depositphotos (depositphotos.com)
- ABQV (abqv.org.br)
