Carros elétricos estão cada vez mais presentes nas ruas brasileiras, mas um efeito colateral tem chamado a atenção: o enjoo em passageiros. Segundo o médico Flavio Adura, diretor científico da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego), o desconforto acontece quando o cérebro recebe sinais contraditórios dos sistemas responsáveis pelo equilíbrio e pela percepção de movimento. O problema, conhecido como cinetose, não é exclusivo dos veículos eletrificados, mas neles se manifesta de forma mais intensa devido às características de aceleração e frenagem.
O que é a cinetose e por que ocorre?
A cinetose acontece quando o ouvido interno percebe que o corpo está em movimento, enquanto os olhos recebem outra informação, principalmente quando o passageiro está olhando para uma tela, lendo ou focado no interior do carro. Esse conflito sensorial desorienta o cérebro. Uma das teorias mais aceitas é que o organismo interpreta esse conflito sensorial como um possível sinal de intoxicação. O vômito seria uma reação primitiva de defesa do corpo, uma tentativa de eliminar uma suposta toxina. Embora o mecanismo seja o mesmo em qualquer veículo, os carros elétricos criam um ambiente diferente daquele ao qual o cérebro humano se acostumou durante décadas nos carros a combustão.
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Diferenças dos carros a combustão
Nos modelos elétricos, a aceleração costuma ser imediata. Diferentemente dos carros a combustão, que aumentam a velocidade de forma progressiva e acompanhada pelo som do motor e pelas trocas de marcha, os elétricos entregam torque máximo instantaneamente. Essa resposta rápida pega o sistema de equilíbrio do corpo desprevenido. Além disso, a frenagem regenerativa provoca reduções de velocidade mais constantes e perceptíveis, muitas vezes sem que o motorista precise pressionar o pedal de freio. O resultado são acelerações e desacelerações abruptas que intensificam o conflito sensorial.
Ausência de pistas sonoras e vibratórias
Nos carros tradicionais, o cérebro usa o ruído do motor e as vibrações como pistas para antecipar acelerações, frenagens e mudanças de velocidade. Nos elétricos, essas referências praticamente desaparecem. “Para algumas pessoas, o corpo sente a aceleração ou desaceleração, mas o cérebro recebe menos pistas para antecipar esse movimento”, afirma Adura. Essa falta de aviso prévio faz com que o organismo reaja com mais frequência com náuseas e tonturas.
Relato de passageira e o papel das telas
Uma passageira ouvida pela reportagem relata que a sensação começa com “cabeça pesada” e evolui rapidamente para náusea. Ela diz que olhar para a estrada costuma ajudar, mas nem sempre resolve completamente o desconforto. O relato reforça o que apontam os especialistas: olhar para telas faz os olhos “informarem” ao cérebro que o corpo está parado, enquanto o ouvido interno percebe curvas, acelerações e freadas. Esse desencontro sensorial aumenta significativamente a chance de enjoo. Por isso, evitar o uso de celular ou leitura durante a viagem é uma das principais recomendações.
Crianças são mais vulneráveis
Segundo a Abramet, crianças entre dois e 12 anos estão entre as mais suscetíveis à cinetose. Isso acontece porque o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio, ainda está em desenvolvimento. Em viagens de carro elétrico com crianças, os pais devem redobrar a atenção e adotar medidas preventivas, como manter o olhar no horizonte e fazer pausas frequentes.
Dicas para evitar o enjoo
Algumas medidas simples ajudam a diminuir os sintomas, tanto em carros elétricos quanto em modelos a combustão. Entre elas:
- Evitar usar celular ou ler durante a viagem;
- Olhar para a estrada ou para o horizonte;
- Manter a ventilação do carro adequada;
- Se possível, sentar no banco dianteiro, onde o movimento é menos percebido.
Para motoristas de carros elétricos, uma direção mais suave – com acelerações e frenagens progressivas – também pode reduzir o desconforto dos passageiros.
A cinetose em carros elétricos é um fenômeno real, mas gerenciável. Compreender suas causas e adotar hábitos simples pode tornar a experiência a bordo mais agradável para todos.
Fonte
- autoesporte.globo.com
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