O Brasil tem até 2030 para reduzir pela metade as mortes no trânsito, mas os números de 2023 mostram um aumento de 6,6% em relação a 2020. A meta, estabelecida pela Segunda Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2021–2030, iniciativa das Nações Unidas, prevê redução de pelo menos 50% nas mortes e lesões até o fim da década.
No entanto, os dados mais recentes mostram que o país caminha na direção oposta: em 2020, foram registradas 32.716 mortes no transporte terrestre, e em 2023 o número chegou a 34.881, um crescimento de 6,6%.
O desafio é ainda maior quando se considera que o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), previsto no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), estabelece a redução de, no mínimo, 50% do índice nacional de mortes no trânsito por grupo de habitantes até 2030, tomando como referência o índice apurado em 2020. Para atingir essa meta, seria necessário reverter a tendência de alta e acelerar drasticamente as políticas de segurança viária.
Meta ambiciosa exige mudança de rota
O Pnatrans é o principal instrumento de planejamento para a segurança no trânsito no Brasil. Ele reúne ações de engenharia, fiscalização, educação e atendimento às vítimas, com metas anuais de redução. A Fenive participa da Câmara Temática de Gestão e Coordenação do Pnatrans, vinculada ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran), como representante da sociedade civil organizada. Essa participação é fundamental para que as demandas do setor de inspeção veicular e da sociedade sejam consideradas nas decisões.
Contudo, a simples existência do plano não garante resultados. A implementação efetiva das ações depende de recursos, vontade política e engajamento de estados e municípios. O aumento das mortes entre 2020 e 2023 mostra que as medidas adotadas até agora não foram suficientes para reverter o cenário.
Frota envelhecida preocupa especialistas
Um dos fatores que pode estar contribuindo para o alto número de sinistros é a idade avançada da frota brasileira. De acordo com o Relatório da Frota Circulante 2026, do Sindipeças/Abipeças, com dados referentes a 2025, a idade média dos veículos em circulação no país, excluídas as motocicletas, é de aproximadamente 11 anos. Nos veículos leves, a média é de 11,1 anos, e entre os pesados, a média chega a aproximadamente 12,1 anos.
O levantamento aponta que 52,6% da frota de veículos leves têm mais de dez anos de idade, e 60,2% da frota de pesados têm mais de dez anos. Veículos mais antigos, se não forem adequadamente mantidos, podem apresentar falhas mecânicas que aumentam o risco de acidentes. A falta de um programa nacional de inspeção técnica periódica agrava essa situação.
Inspeção veicular suspensa desde 2018
A Inspeção Técnica Veicular (ITV) periódica está prevista no artigo 104 do CTB desde 1997. A regulamentação nacional da ITV chegou a ser estabelecida pela Resolução Contran 716/2017, mas a implementação foi suspensa por tempo indeterminado no ano seguinte à resolução. Sem a inspeção obrigatória, não há um controle sistemático das condições de segurança dos veículos em circulação.
Especialistas defendem que a retomada da ITV seria uma medida eficaz para reduzir acidentes causados por falhas mecânicas. No entanto, a suspensão permanece, e a frota continua envelhecendo sem um acompanhamento técnico periódico.
Sinistros com caminhões em alta
Os dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram um cenário preocupante nas rodovias federais. Entre janeiro e julho de 2026, os sinistros envolvendo caminhões nas rodovias federais somaram 12.345 ocorrências, um aumento de 8% em relação ao mesmo período de 2025. Conforme a PRF, houve aumento de 8% no número de sinistros, 10% no de feridos e 5% no de mortes em relação ao mesmo período de 2025.
É importante ressaltar que os dados se referem a ocorrências envolvendo caminhões, o que não significa que os condutores desses veículos tenham sido responsáveis por todos os sinistros. Além disso, os números abrangem apenas as rodovias federais fiscalizadas pela PRF, não representando a totalidade das ocorrências registradas no trânsito brasileiro.
O caminho até 2030
Para cumprir a meta de redução de 50% nas mortes até 2030, o Brasil precisará de um esforço coordenado entre União, estados e municípios. Especialistas em segurança viária apontam como prioritárias a implementação do Pnatrans, a retomada da inspeção veicular e o enfrentamento do envelhecimento da frota. Para cobrar essas ações, o cidadão pode procurar o Conselho Estadual de Trânsito de seu estado ou participar de audiências públicas do Contran. Sem avanços concretos, o país corre o risco de não atingir o objetivo assumido internacionalmente.
O prazo está se esgotando, e os números atuais indicam que o desafio é maior do que se imaginava. A sociedade civil, por meio de entidades como a Fenive, continua cobrando ações efetivas para reverter a tendência de alta nas mortes no trânsito.
Fonte
- www.portaldotransito.com.br
- Ipea (www.ipea.gov.br)
