A avaliação psicológica para obtenção e renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) funciona como a porta de entrada para o cuidado com a saúde mental de grande parte da população. Para muitos brasileiros, essa consulta obrigatória é o único momento em que têm contato com um profissional de psicologia. O problema é particularmente grave entre motoristas profissionais, que enfrentam rotinas extenuantes e pouco acesso a serviços de saúde mental.
Segundo o Índice Instituto Cactus-Atlas de Saúde Mental (iCASM), cerca de 19% dos brasileiros chegaram a se consultar com um psicólogo ou psiquiatra no último ano. A grande maioria não passou de cinco encontros, o que indica um acompanhamento insuficiente para tratar questões emocionais de forma efetiva. A oferta de terapia no SUS ainda é muito inferior à demanda, e os planos de saúde tradicionais têm limitações na oferta da psicoterapia.
Porta de entrada para o cuidado mental
Para muitos brasileiros, a avaliação psicológica da CNH é o único contato com um profissional de psicologia, segundo o iCASM. Durante o processo, o profissional avalia condições emocionais e cognitivas que podem interferir na direção. Para quem nunca buscou ajuda psicológica, esse momento pode revelar a necessidade de acompanhamento contínuo. Segundo o Conselho Federal de Psicologia, cerca de 5% dos avaliados são encaminhados para acompanhamento psicológico.
No entanto, especialistas apontam que a simples realização do exame não garante acesso à terapia. A transição entre a identificação de um problema e o início do tratamento é um gargalo no sistema de saúde. Muitos motoristas saem da clínica com um laudo, mas sem orientação sobre onde buscar ajuda. A falta de integração entre os serviços de trânsito e a rede de saúde mental agrava o cenário.
Motoristas profissionais em situação crítica
O problema é particularmente grave entre motoristas profissionais. Caminhoneiros, por exemplo, passam semanas longe da família, sob pressão de prazos, dormindo e se alimentando mal. Essas condições aumentam o risco de transtornos como ansiedade e depressão. Ainda assim, muitos não têm acesso a nenhum serviço de saúde mental durante as viagens.
O caminhoneiro que passa semanas longe da família, sob pressão de prazos, dormindo e se alimentando mal e sem acesso a nenhum serviço de saúde mental, tem naquela visita à clínica de trânsito a única janela de cuidado. Essa realidade evidencia a importância de fortalecer a avaliação psicológica como um momento de acolhimento e orientação. Sem isso, a janela se fecha e o motorista volta à estrada sem suporte.
Limitações no acesso à psicoterapia
A oferta de terapia no SUS ainda é muito inferior à demanda. Embora o sistema público conte com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e equipes de saúde da família, o número de psicólogos é insuficiente para atender toda a população. As filas de espera podem durar meses, desestimulando quem busca ajuda. Dados do Ministério da Saúde indicam um déficit de 12 mil psicólogos na atenção básica.
Os planos de saúde tradicionais têm limitações na oferta da psicoterapia. Muitos convênios restringem o número de sessões ou exigem autorização prévia, o que dificulta o tratamento contínuo. Além disso, a cobertura para consultas com psicólogos costuma ser limitada a determinadas especialidades. Essa realidade faz com que muitos brasileiros abandonem o acompanhamento após poucas sessões.
O papel da avaliação na prevenção
A avaliação psicológica da CNH pode ir além do simples cumprimento de uma exigência legal. Ela pode ser um instrumento de prevenção, identificando precocemente sinais de sofrimento mental. Com um encaminhamento adequado, o motorista poderia iniciar tratamento antes que os sintomas se agravem. No entanto, isso exige uma mudança na forma como o exame é conduzido e integrado ao sistema de saúde.
Atualmente, a avaliação é pontual e não há acompanhamento posterior. O motorista recebe o laudo e, se aprovado, segue sua rotina sem qualquer suporte. Para que a avaliação cumpra seu potencial preventivo, seria necessário criar fluxos de encaminhamento e parcerias entre clínicas de trânsito e serviços de saúde mental. O projeto de lei 3.267/2019, em tramitação no Congresso, propõe a criação de um protocolo de encaminhamento para motoristas com indícios de sofrimento mental.
Um chamado à integração de serviços
Os dados do iCASM mostram que a maioria dos brasileiros que buscam ajuda não conclui o tratamento. Isso sugere que o problema não está apenas no acesso, mas na continuidade do cuidado. A avaliação psicológica da CNH poderia ser um ponto de partida para um acompanhamento mais longo, mas isso depende de políticas públicas integradas. Sem essa integração, a porta de entrada permanece entreaberta.
Para motoristas profissionais, a situação é ainda mais urgente. A rotina nas estradas dificulta o acesso a consultas regulares, e a avaliação da CNH é muitas vezes a única oportunidade de falar com um psicólogo. Fortalecer esse momento, com orientação e encaminhamento, pode fazer diferença na vida de milhões de brasileiros. Uma medida imediata seria a inclusão de um guia de serviços de saúde mental no laudo da avaliação psicológica, com contatos de CAPS e clínicas-escola.
Fonte
- www.portaldotransito.com.br
- OMS (www.who.int)

